O halloween já foi, os mortos vivos foram dissecados ao máximo pela blogosfera e os zumbis já começam a voltar para suas tumbas, agora é hora de novidade por isso a Taverna do Goblin empurra as mesas, muda a decoração e auto-proclama novembro como o mês do patriotismo. Não que isso tenha qualquer validade fora destas portas, mas quem se importa?
Dando inicio as postagens, tirinhas e outras novidades cujo tema será o nosso querido Brasil, vou falar um pouco sobre a historia do Brasil através da ótica RPGista. Agora vamos ao que interessa.
Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o bater; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.”
Carta de Pero Vaz de Caminha
Eis que avistamos aquelas terras tão grandes que muitos exclamaram, “Chegamos ao novo mundo?”, sem perceber a verdade em suas palavras estamos em um novo mundo, pois como Caminha escreveu em suas cartas “Esta terra, Senhor, me parece que será tamanha, que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa” e depois de passar horas estudando tais cartas finalmente terei a chance de escrever minhas próprias.
Infelizmente já não verei mais as belezas que ele viu, pois caminho ao lado de escravos e as pestes que nós mesmos trouxemos, ouço as vozes de pragas e ritos pagãos vindas das partes baixas do caravela e elas se sobressaem aos sons das ondas e do mar bravio como se fossem ampliadas pelos demônios a quem eles chamam deuses.
Apego-me a minha fé cristã e percebo o quanto precisarei de toda ela para cumprir a missão a mim imposta pelos desígnios da santa religião, penso em como serão os indígenas deste novo mundo, amistosos e pacíficos como dizem os santos ou feras e assassinos como fazem questão de dizer os soldados?
Primeiro dia de novembro de 1711
Apostamos pouco antes do almoço o que me deu a oportunidade de ter minha primeira refeição em solo brasileiro, um nome que ainda não me acostumei, nomear terras tão vastas com o nome de uma arvore não me parece o mais adequado. A ceia ocorreu ao ar livre do lado de fora da pequena igreja na qual Dom Henrique Oliveira me acolheu de bom grado.
Durante a ceia me contou sobre os indígenas a fonte de minha curiosidade, percebi pelos seus relatos que existem tipos diferentes deste povo, alguns se curvam a verdade e aceitam nosso senhor, outros são duros e preferem acreditar em ídolos falsos, usam arcos e flechas e atacam sem motivos aparentes e ainda existem aqueles que preferem não escolher nenhum dos lados e fazem das arvores suas casas se isolando até mesmo de seus iguais, um tipo exótico de nômade.
A curiosidade me faz desejar sair agora mesmo e conhecer as surpresas que este novo mundo me reserva, mas Dom Henrique insistiu para que eu passe o dia em vigília, “Uma pequena provação de sua fé” diz ele mesmo após minha explicação sobre os meses de vigília que passei em alto mar.
Durante a tarde, trancado, diante do altar ouvi barulhos do lado de fora, gritos agudos de dor e outros de raiva, a curiosidade cresceu em mim e desejei ver o que era, mas as palavras de Dom Henrique ainda estavam fixas em minha mente, os gritos cessaram e a paz voltou a reinar.
O sol foi aos poucos deixando a pequena janela por onde entrava a luz que me iluminava, a escuridão começava a cair quando duas negras, escravas presumi pelas correntes, vieram trazendo velas e um pedaço de pão, uma delas tinha a camisa rasgada e sangue por todos os lados, assustei-me com a quantidade de sangue e não consegui pronunciar qualquer palavra até que fosse tarde demais.
Terceiro dia de novembro de 1711
Finalmente recebi a autorização para sair e explorar, infelizmente deveria ir acompanhado de alguns capitães do mato, em minha terra eles seriam chamados de soldados, mas vejo claramente porque a diferenciação no nome, estes homens são rudes, não possuem honra ou lealdade e não acreditam em nada nem em Deus ou no Rei.
Caminhamos por trilhas estreitas abertas na mata e a todo momento os homens a minha frente olhavam assustados para os lados, quando os interrogava por tanta desconfiança, mostravam dentes amarelos e diziam “Índio nasceu e viveu na mata padre, o senhor acha mesmo que nós conhecemos elas melhor que eles?” e terminavam em risadas desaforadas, mas se percebia cheias de medo.
As imagens do que poderia ter acontecido para deixar estes homens com tanto medo inundam minha mente. Eles me levaram até uma pequena cidade a pouco mais de quatro horas de caminhada, minhas pernas estavam doendo e bolhas começavam a se formar, sou obrigado a concorda com eles, o tempo sentado nos bancos macios da igreja me fizeram preguiçoso, algo que terá de mudar.
De pronto sou recebido por todos e o sotaque tão claro e carregado dos ricos fazendeiros mostra como fomos bem sucedidos em colocar os nossos compatriotas em posições de respeito, entre os mais pobres percebo receio e até mesmo medo de falarem comigo, penso o que os outros missionários podem ter feito com este povo.
Em meio aos meus devaneios tive minha primeira experiência com um nativo destas terras, passou por mim à filha do Marques Everaldo, a quem conheci ainda na terra mãe, e junto dela sua dama de companhia, uma índia de longos cabelos pretos e pele amarelada como descreveu Pedro Vaz de Caminha. Vestida de poucas roupas, de nariz bem feito e olhos amendoados. Olhando para tão bela mulher é impossível dizer que existem assassinos sanguinolentos dentre eles.
Vigésimo segundo dia de novembro de 1711
Terror, morte e destruição isso é tudo que tenho a dizer, ainda não se passaram trinta dias que estou nestas terras e tive a primeira impressão da verdade que vive aqui, os nativos se comprovaram eficientes guerreiros, nos atacaram na noite vindo das matas em silencio absoluto.
Flechas voaram por nossas cabeças e atingiram nossos peitos, ao meu lado um dos homens de Dom Henrique caiu com uma seta perfurando seu olho, o sangue jorrou em minhas vestes e por alguns minutos me mantive catatônico incapaz de entender o que acontecia. Porque atacavam homens de bem? Estamos nestas terras a mais de 2 séculos e ainda sim eles não conseguem compreender as maravilhas que preparamos para eles.
E por culpa deles, sim culpa destes selvagens, escrevo estas palavras com sangue nas mãos, sei que foi apenas em legitima defesa, mas nunca deveria ter usado as aulas de esgrima de minha infância para apunhalar uma pessoa no peito, não deveria ter feito o que fiz e pior de tudo não deveria me sentir tão orgulhoso.
Envio-te mãe estes relatos da minha breve vida missionária, hoje percebo que devo ajudar meu pais e honrar a Deus de um outro modo, alisto-me as forças portuguesas e saio a caça dos animais.
Pedro Tavares de Albuquerque
Este é o primeiro post de uma série que abordara o Brasil de diversos ângulos, vista dos índios, portugueses, padres, capitães do mato e outros. Não perca, uma novidade todo dia na Taverna do Goblin e no fim do mês uma surpresa… ou não. Comentem.








novembro 2nd, 2009 at 16:30
Cara, muito bom o teu texto! O clima tá muito bom.
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novembro 3rd, 2009 at 9:41
caraca, parabéns Goblin, mto bom o texto, Massa o brasão dos Cabral, eu não conhecia, show de bola!
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novembro 3rd, 2009 at 11:01
Agradeço a todos pelos elogios e só tenho a dizer que são eles que motivam a sempre escrever mais e melhor.
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novembro 3rd, 2009 at 11:04
Caro camarada goblin, está muito bom o texto. Vai se tornar um ótimo mterial para se ambientar uma campanha no Brasil recém-colonizado.
Sinto-me honrado por ter o Brasão de minha familia adornando o iníco do post.
Abraço
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novembro 4th, 2009 at 15:42
Acho que os rpgistas poderiam se empenhar mais em campanhas com cara brasileira e caracterizar o RPG nacional. Somos bons em melhoras as coisas e criatividade é o que não falta.
Parabéns pelo texto. [Hei, ainda estou esperando você colocar meu banner no seu blog].
Abraço!
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